sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Que será feito de Jofi?


Mais uma história que chegámos a pensar incluir no "Lx60": o incrível Jofi, mascote do Clube Atlético do Campo de Ourique, que em 1964, com apenas sete anos de idade, atravessou o Tejo a nado. Pensámos tentar encontrá-lo, saber o que seria feito dele, recordar com ele esse dia. A ideia ficou pelo caminho, mas o recorte da revista Flama não. Aqui fica parte do texto transcrito e a fonte da informação, para quem quiser investigar. 




“Jofi”: O mais jovem nadador que atravessou o Tejo

Jorge Rodrigues Vieira é um garoto calmo que olha demoradamente as pessoas e fala pouco. Desinteressa-se com facilidade do meio que o cerca, para ficar distante, alheio ao que dizem dele e das suas façanhas. Tem sete anos.

Vive ao lado do ringue de patinagem e logo de manhã vai para o cimento correr. Às vezes passa lá os dias inteiros. Quando vai para a piscina ou para a praia também passa os dias inteiros na água. Incansavelmente. Esta é aliás a sua maior qualidade: tem uma resistência extraordinária para a sua idade.

Há dias cometeu um feito raro, que fez chamar sobre ele as atenções gerais: atravessou a nado o Rio Tejo, entre Trafaria e Lisboa, numa distância de, sensivelmente, quatro mil metros. E isto porque, arrastado pela corrente, foi sair no Dafundo quando a meta era em Pedrouços (perto de 3 000 metros).

Chamam-no “Jofi” e começou a praticar desporto aos três anos. Ginástica, hóquei em patins, natação. Agora está também interessando no judo e por vezes faz um bocado de boxe com o pai. É dos frequentadores mais assíduos do Clube Atlético do Campo de Ourique e o seu “entusiasmo” tornou-o na “mascote” do grupo.

O “Jofi” é na realidade um caso especial de vocaçãoo para o desporto. Na classe de ginástica salientou-se imediatamente, e tornou-se no ajudante do professor. Tem muita força de vontade e sentido das responsabilidades. Agora tem de conciliar a escola com o desporto. É um óptimo estudante mas...

-       - Gosto mais de nada do que estudar. Também gosto mais de nadar do que patinar.

A prova no Tejo

No dia da prova não sentiu medo. Brincou toda a manhã e, de vez em quando, perguntava se ainda faltava muito para começar. Partiu juntamente com outro garoto, o Hélder Frias, de 9 anos, que já o ano passado realizara a travessia, acompanhado por um barco de apoio onde ia o pai, o treinador e outros membros do Clube Nacional de Natação.

A corrente foi-o desviando do trajecto previsto e afastou-o de todos os outros concorrentes. No barco de apoio insistiam para que tentasse nadar um pouco mais depressa, já que não queria desistir como lhe aconselhavam. O rio parecia não ter fim, tal a distância da outra margem. Então os do barco resolveram afastar-se um pouco para o incitar. E o “Jofi” teve pela primeira vez medo. Viu-se sozinho, julgou-se desamparado e pensou que nunca mais sairia do mesmo sítio. A margem parecia fugir-lhe. Descontrolou-se um pouco. Do barco, de novo a seu lado, o treinador perguntou-lhe se queria que ele se deitasse também à água e nadassem os dois. O “Jofi” sentiu voltar todo o entusiasmo. Não estava cansado, apenas desorientado por ir só. E a praia até parece que se aproximava mais depressa.
Quando se pôs de pé não quis que o agasalhassem. Não tinham frio nenhum. O treinador tremia decido à temperatura da água. E enquanto todos esperavam que ele quisesse descansar, o “Jofi”, muito calmamente, foi brincar na areia. Nadara duas horas e dezassete minutos.

(...)

Reportagem de Rodrigues Piteira e Fernando Dias da Costa. Fotos de Apollo e Armando Vidal. In Flama, 1964

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