segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Roteiro gay - passo a passo

Tínhamos as entrevistas, a informação, os textos. E agora? Como traduzir este universo tão rico - e, para a maior parte das pesssoas, desconhecido - em imagens? "Vou falar com a Patrícia Furtado", disse o Nick. Poucos dias depois, recebíamos por email a resposta a todas as nossas preocupações. Que alívio.

O roteiro gay é aquele tema que provoca sempre um sorriso nos leitores. Na maior parte das vezes é de surpresa, às vezes de escárnio, outras de simples curiosidade. Poucas pessoas fora do meio imaginavam o que se passava dentro de portas pela cidade. Quisemos mostrar esse lado durante tanto tempo oculto. A Patrícia viu ainda mais longe: conferiu-lhe uma estética moderna, delicada e um bocadinho exuberante.

No "Lx60", o mapa aparece precedido de textos sobre o panorama geral da cidade e algumas personagens mais marcantes. Mas é o trabalho da Patrícia - com os cafés, os restaurantes, os bares, zonas de engate e até uma sauna assinalados - que mais dá nas vistas e seduz. Cada cor representa não só uma parte da bandeira do arco-íris, como um tipo de lugar. Não hesitamos em afirmar que é um dos planos mais bonitos do livro. Da tipografia, às formas escolhidas, passando claro pela informação, é uma nova cidade que se revela diante dos nossos olhos.



Angústias e preocupações de uma ilustradora já aqui em baixo, pela mão da própria Patrícia. E um bónus: a oportunidade de ver o roteiro formar-se, passo a passo, num raro vislumbre de como se processa o trabalho de um ilustrador.

Lisboa é uma cidade muito especial, e orgulho-me de a conhecer bem. Morei aqui quase toda a minha vida, ando quilometros a pé, visto-me frequentemente de turista para explorar ruas menos percorridas de máquina fotográfica ao pescoço, gosto de acreditar que a conheço melhor do que grande parte dos Lisboetas. 

Foi por isso com um grande sorriso que recebi o convite da Joana e do Nick para participar neste LX60 com um roteiro da Lisboa gay dos anos 60. Porém, assim que parei um pouco para pensar, a tarefa pareceu-me esmagadora e bem mais complicada do que me parecera à primeira vista.

O primeiro passo foi identificar os locais de interesse e marcá-los num mapa tirado do Google Maps. Não tendo à minha disposição imagens da época com que enriquecer a ilustração, um mapa feito à escala – ainda por cima relativamente diminuta devido à dispersão dos sítios por Lisboa – pareceu-me, à partida, uma solução demasiado aborrecida. 


Como o roteiro era meramente ilustrativo, e não uma ferramenta que precisasse de mostrar a turistas desorientados como chegar a cada sítio, ocorreu-me que respeitar a escala talvez fosse desnecessário. Era a desculpa perfeita para dar largas ao meu gosto pela tipografia, e fazer uma mapa inteiramente composto por texto e alguns elementos decorativos, totalmente desenhado à mão. Era um pouco como a fazer um puzzle, tentando encaixar praças, ruas e avenidas no seu respectivo lugar, sem sobreposições nem espaços em branco. 


Um dos desafios mais complicados foi fugir à tentação de sobrecarregar de detalhe as zonas de Lisboa que me eram mais familiares, e de simplificar demais a zonas mais desconhecidas. No processo, fiquei a conhecer um pouco melhor a geografia de Lisboa, e percebi o quanto ainda há por explorar. 


Feito o esboço final, com todas as peças arrumadas, e escolhidas as cores arco-íris que iriam salientar e classificar os locais referidos no texto, parti então para a tarefa minuciosa de desenhar cada pormenor individualmente, tentando não repetir demasiado o tipo de letra ou as formas das caixas, e variar os tons de cinza sem nunca perder o equilíbrio. 


Foi um trabalho de paciência, feito sem dar pelo tempo, de Norte para Sul. Confesso que quando cheguei ao Rio Tejo, a horas impensáveis e de olhos cruzados com tanta letrinha, estava tão cansada como se tivesse atravessado a cidade toda a pé. Alívio. Missão cumprida.

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Ilustradora e designer em regime de freelance, Patrícia Furtado nasceu em 1977, e é licenciada em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Viveu em Londres durante cinco anos, onde trabalhou sobretudo nas áreas de design gráfico e webdesign. Em 2006, regressou a Lisboa com uma carteira de clientes internacionais com quem continuou a trabalhar remotamente. Em 2009, juntou-se ao "The Lisbon Studio", um colectivo de profissionais criativos (na sua maioria ilustradores e artistas de banda desenhada), e começou a trabalhar com mais intensidade em ilustração. Colabora com vários jornais e revistas e tem vários livros publicados, nomeadamente na área da ilustração infantil.

O seu trabalho pode ser visto em patriciafurtado.net, o seu blogue pessoal em oinfernosãoosoutros.net e as suas receitas em cafepatita.net.

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